Paulo Brabo - A Bacia das Almas
Que as três grandes ortodoxias que brotaram do tronco bíblico são
sexualmente conservadoras não deve haver dúvida, mas às vezes penso que
não gastamos tempo suficiente tentando determinar porquê. À primeira
vista pode parecer que as coisas são assim porque religiões lineares
como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo tendem à ordenação e ao
controle, e em seu processo civilizatório sentem-se impelidas a produzir
mecanismos que refreiem o poder socialmente disruptivo do sexo. Desde
o primeiro momento,
afinal de contas, Deus aparece levantando restrições e barreiras que
protejam sua criação de resvalar no caos original – e parece haver
poucos emblemas mais unânimes e mais formidáveis do caos do que a
multiforme, embriagadora e infracionável bagagem sexual humana.
Esse argumento de contenção do caos, pode estar ocultando, no
entanto, uma lógica falha. Talvez seja vantajoso para o sistema,
justamente a fim de manter o estado de coisas e perpetuar a dominação,
sustentar artificialmente a ideia de que o sexo tem um poder socialmente
disruptivo que na realidade não tem. Se o sexo não se mostrar na
prática tão socialmente destrutivo quanto se supunha que fosse, as
ortodoxias perderão grande margem de alavancagem em outras áreas. Esse,
por si só, pode ser um excelente motivo para que as instituições
mantenham sua ênfase na obediência estrita aos regulamentos: desse modo a
base não comprovada dos seus argumentos permanecerá oculto pela cortina
das proibições.
Mas estou me adiantando, e talvez da forma errada.
Talvez eu devesse colocar em cheque logo de início as suas
preconcepções, e explicar que quando a Bíblia fala de sexo não está
falando de pureza, mas de mecanismos de dominação. Onde parece estar
falando de contatos proibidos entre corpos, está na verdade ilustrando e
estabelecendo (e por vezes desafiando) jogos sociais de poder e
mecanismos sociais de controle.
Para demonstrar adequadamente este ponto será necessário um livro que
ainda não comecei a escrever. Por enquanto algumas indicações terão de
bastar.
Antigo Testamento: a honra do macho
Para começar há o Antigo Testamento, e a vantagem de começarmos por
aqui é que não há lugar em que essas coisas fiquem mais claras. Se as
legislações do Pentateuco dão a impressão de ter um caráter chauvinista e
patriarcal é porque em grande parte o tem. Essa ênfase fica muito clara
nas passagens que regulamentam o sexo. Embora por vezes aparente estar
tratando da questão geral da legitimidade dos contatos sexuais (de modo a
beneficiar a todos),
A principal função social do sexo era ilustrar uma relação de dominação.o texto está essencialmente levantando barreiras sociais que protejam a honra do macho
(de modo a legitimar a supremacia do ser humano adulto do sexo masculino).
Isso porque, como em muitas culturas da Antiguidade (e até
recentemente em muitas culturas ocidentais), na esfera do Antigo
Testamento a principal função social do sexo era ilustrar uma relação de
dominação. O sexo era tido como um ritual estilizado de poder e de
submissão que refletia em privado uma diferença de status muito real na
esfera social.
Nessa configuração, tomada como válida por muita gente ainda nos
nossos dias, a própria anatomia é interpretada como confirmando o status
superior do homem, primazia que a relação sexual periodicamente
celebra. O homem tem papel ativo: ele supre, penetra, domina, possui e
fertiliza; o papel da mulher é passivo: ela acolhe, é penetrada, é
dominada, é possuída e é fertilizada. Tudo nessa visão clássica da
relação, bem como nas palavras que escolhemos para descrevê-la, serve
para maximizar o papel do homem e minimizar o papel da mulher. O ativo é
honrado e valoroso, o passivo é submisso e desprezível
.
Parece haver pouca dúvida de que os povos da Antiguidade
desenvolveram essa visão do sexo como emblema de dominação a partir da
observação do comportamento dos animais, já que para muitos mamíferos
superiores o sexo tem uma função claramente política, além da
reprodutiva. O líder é via de regra o grande reprodutor, o macho
fertilíssimo que tem o maior número de parceiras, e ele pode resolver
ilustrar a sua superioridade e a submissão dos demais tomando como
parceiros passivos até mesmo os machos abaixo dele na hierarquia.
Muito claramente, foi essa visão da sexualidade como registro social
de dominação e controle, e não nenhuma inclinação homossexual
generalizada, que levou os homens de Sodoma a rejeitar as filhas virgens
de Ló em favor do sexo com os seus visitantes. Eram homens bárbaros que
queriam mostrar barbaramente o seu poder; na sua visão de mundo,
possuir visitantes ilustres simbolizaria mais formidavelmente a sua
potência do que simplesmente violentar moças locais
.
Embora em muitos sentidos mais generosa, mais liberal e mais
sofisticada do que as leis que regiam outros povos na mesma época, a
legislação do Pentateuco toma como certa essa noção do sexo como ritual
de dominação. Ele favorece claramente a ideologia da supremacia do
macho, e deita medidas explícitas para proteger a sua honra. O
adultério, por exemplo, é visto como transgressão especialmente grave
não por violar a santidade da família
, mas porque representa uma afronta à honra e à potência/suficiência do homem casado/macho reprodutor.
O sexo entre homens é julgado “abominável” essencialmente pela mesma
razão. Um homem não deve deitar-se com outro homem “como se fosse com
mulher”, porque isso ilustraria uma relação de dominação e de submissão
entre agentes que para o sistema devem permanecer invariavelmente
dominantes – nunca submissos ou passivos. O banimento do comportamento
homossexual não está embasado no intercâmbio entre corpos incompatíveis,
mas na conotação politicamente inaceitável que uma relação “desigual”
entre “iguais” é interpretada como tendo. Ambos os transgressores devem
ser mortos: um porque aceita a submissão que denigre a honra inerente do
macho, outro porque a proporciona.
Semelhantemente, de modo a manter a virtude masculina intocada, um
homem não deve absolutamente deitar-se com uma mulher menstruada (isto
é, inadequada e impura), e um homem com os testículos esmagados deixa de
ter cacife para apresentar ofertas diante de Deus: tudo para que o
homem ideal permaneça o grande dominador de honra intacta, o eficaz
reprodutor suficiente e desimpedido.
Em conformidade com essa tendência, na Bíblia são sempre as mulheres
que são estéreis, nunca os homens. Não conviria a um herói magnífico
como Abraão mostrar-se deficiente (mesmo que divinamente suprido, como
ocorre com Sara) nessa mais significativa das áreas. Em retrospecto,
talvez a função original de Hagar e de Ismael na narrativa tenha sido
apenas deixar claro além da dúvida que a culpa pela infertilidade do
casal residia sobre Sara, não sobre seu marido.
Roland Boer estava apenas em parte brincando quando escreveu seu provocativo e constrangedoramente meticuloso artigo
The Patriarch’s Nuts: Concerning the Testicular Logic of Biblical Hebrew (As bolas do patriarca: considerações sobre a lógica testicular do hebraico bíblico).
Os autores do Antigo Testamento de fato criam que algo grande, sagrado e
preferencialmente inviolável residia entre as coxas do ser humano do
sexo masculino; isso fica evidente no uso quase reverente que fazem dos
termos hebraicos que em português se traduzem comumente como “lombos” ou
“coxa”, mas são eufemismo para regiões do corpo mais exclusivamente
masculinas (como, por exemplo, na expressão “fruto dos teus lombos”). Os
testículos, mais do que o pênis, eram tidos como residência da
masculinidade e da iniciativa, e portanto daquilo que a humanidade tinha
de mais íntegro, momentoso e admirável
.
Nesse mundo, em que o sexo era visto como registro social do status
de dominação e de submissão de seus participantes, e os testículos como
os tabernáculos mais sagrados da virtude, apenas as manifestações
sexuais que não comprometiam a honra e a primazia do macho eram tidas
como legítimas.